• QUEM SOMOS

    A Ordem da SantÍssima Trindade e dos Cativos foi fundada por São João de Matha, o qual teve esta inspiração enquanto celebrava a sua primeira missa no ano de 1193. Oitocentos anos depois, esta mesma inspiração e a sua obra continuam a nos interpelar! Os Frades Trinitarios são impelidos por um espírito apostólico que os fazem anunciadores da libertação aos mais pobres, aos abandonados e marginalizados, e sobretudo, àqueles cristãos em perigo de perder a fé, por causa de sua fidelidade ao Evangelho...

  • ESPIRITUALIDADE TRINITARIA

    A vida especialmente consagrada a Santíssima Trindade constitui, desde sua origem, um elemento essencial e característico do patrimônio da Ordem Trinitária. Desta consciência trinitária flui toda sua vida espiritual e litúrgica, religiosa, comunitária e apostólica, e sua permanente renovação...

  • ONDE ESTAMOS

    A Ordem da Santíssima Trindade, dividida em sete províncias religiosas, três vicariatos e duas delegações, está presente hoje na: Itália, Espanha, frança, Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Guatemala, Porto Rico, Colômbia, Brasil, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Índia, Madagascar, Polônia, Gabão, Congo e Coréia do Sul. A missão dos religiosos trinitários, espalhados pelo mundo, é garantir a assistência a aqueles que mais necessitam: aos pobres, vítimas das diferenças sociais; aos cristãos perseguidos, vítimas de intolerâncias...

"VAI, EU ESTOU CONTIGO" (EX 3,12) REFLETINDO SOBRE VOCAÇÃO


RETIRO DE AGOSTO DE 2011


Vai, eu estou contigo”: foi isso que Deus disse a Moisés, a Maria, a Mãe de Jesus (Lc 1,28), aos Apóstolos (Mt 28,20) e a tantos outros antes de nós. Aliás, foi este o nome que Deus deu a Jesus: “Emanuel, que significa Deus conosco” (Mt 1,23) = “Eu estou contigo!”.

Ninguém chama a si mesmo: somos chamados sempre por alguém. O chamado vem de fora: é Deus que chama. Toda vocação é iniciativa de Deus: é gratuidade, liberalidade, é predileção.

Ser chamados pelo nome é a coisa mais freqüente e comum que nos acontece no dia a dia: Luiz Carlos, Cláudio, Vincenzo... Quando alguém chama, a gente para e pergunta: “o que há?”. As vezes somos chamados, mas não escutamos: há muito barulho ao redor ou dentro de nós. Sem silêncio não há escuta, e sem escuta não pode haver resposta adequada. Deus não está no furacão, no terremoto nem no fogo: Elias o percebe na brisa suave (1Cr 19, 11-12).

Quando alguém chama é porque precisa de você; você dá sua resposta, se compromete e vai agindo. A Bíblia é a história da vocação de um povo; muitas vocações pessoais em vista da vocação de um povo todo: para ser um sinal da “glória de Javé” no meio de outros povos.

Quando se fala em vocação, logo se pensa na vocação específica de padre, religioso, ministro, ou mesmo na vocação à santidade ou na vocação do batismo. No entanto, tudo isso, mesmo sendo verdadeiro, é somente uma parte. Antes de tudo isso, há uma vocação básica que abarca e fundamenta todas as outras vocações. Esta vocação básica é ser o que somos: eu sou Vincenzo, você é Diego. Esta vocação é: ser Vincenzo, ser Diego. Isso quer dizer que nossa vocação básica é ser humano. Não se constrói um prédio começando pelo andar de cima! A realização da própria humanidade em plenitude é a vocação básica, primaria e insubstituível de cada um. São Leão Magno dizia que: “Jesus foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano assim”. E Santo Irineu, falando da encarnação, afirmava que “Jesus Cristo redime aquilo que assume”, por isso a humanidade é vocacionada à sua realização plena: “O homem vivente é a glória de Deus”. Esta intuição pode ter inspirado São João de Matha a ligar a glorificação da Trindade à libertação dos escravos - Gloria tibi Trinitas et captivis libertas! - nos quais ele via a imagem de Deus desfigurada: homem livre - o não cativo - adquire sua dignidade plena e, por isso, pode readquirir a imagem de Deus perdida. Esta vocação básica comporta um contínuo trabalho de “melhoramento” da nossa humanidade pessoal. São Paulo fala de “estatura” do Cristo quando propõe a humanidade de Cristo como modelo da maturidade humana (Ef 4,13). Libertar-nos de tudo que impede o pleno desenvolvimento de nossa personalidade até a maturidade, é um trabalho-compromisso que não conhece pausas tendo diante dos olhos Jesus Cristo, homem perfeito.

O nosso exame de consciência cotidiano é uma boa oportunidade para verificar o aperfeiçoamento da nossa personalidade, libertando-a de todo entrave que impede seu desenvolvimento: capacidade de decidir com maturidade; serenidade diante das contrariedades; capacidade de nos relacionarmos com os outros com equilíbrio; de conviver apesar das possíveis divergências de opiniões; desapego daquilo que nos prende - coisas ou opiniões - limitando nossa liberdade interior e exterior; desenvolvimento físico, afetivo, intelectual que nos leva a assumirmos a responsabilidade diante dos compromissos assumidos. Estas “coisas” que têm como objetivo o amadurecimento pleno de nossa dimensão humana - até quanto é possível nesta terra! - são chamados de valores humanos. A psicologia ajuda a desvendar as tantas amarras que nos impedem de responder à nossa vocação básica, e o Evangelho nos mostra o exigente caminho que leva a esta resposta: “Quem não toma a sua cruz ...”.

A insistência sobre estes elementos “humanos” é unânime nos mestres da espiritualidade que os consideram como condição importante para o caminho de perfeição até a configuração com Cristo. Uma vez dada a resposta a este chamado básico - que nunca é dada de uma vez por todas - poderemos responder melhor à nossa vocação específica, pois, como diziam os latinos: “Natura não facit saltus”: a graça - a espiritualidade - supõe a disposição para caminhar em busca da maturidade humana. Não cuidar destes valores humanos pode constituir uma “resistência” à vocação e um serio obstáculo à convivência tanto na vida familiar, quanto de comunidade.

A realização da vocação humana é um processo complexo, mas indispensável que exige a participação concomitante de várias instâncias: a família, com a presença saudável das figuras materna e paterna; a escola, com seu processo de socialização e cultural; o ambiente sócio econômico e cultural propício. São pré-condições para que a vocação humana não fique comprometida. Isso nos faz compreender a importância do trabalho de promoção humana que a Igreja vem desenvolvendo ao longo dos séculos.
        
No chamado de Jesus podemos constatar alguns elementos específicos que dão identidade à vocação do discípulo. Segundo Marcos 3, 13-14, Jesus chama para si: constituiu o grupo para que “estivessem com ele”. O primeiro momento, então, consiste na “vida com ele”: convivência, para chegar a uma adesão incondicionada. Esta adesão é o elemento fundante de qualquer vocação.

Em primeiro lugar se diz “sim” a ele, à sua pessoa. Esta exigência caracteriza Jesus diante dos mestres de todos os tempos: antes de qualquer outra atitude, por causa dele ou de sua mensagem, está adesão à sua pessoa. Segundo a teologia, isso revela a consciência que Jesus tem de sua identidade: nunca se ouviu na historia das religiões que alguém, antes mesmo de propor sua doutrina, propõe a si mesmo como referência indiscutível e absoluta para seus seguidores, e faça disso uma questão indispensável para a salvação. Isso significa que antes da vocação especifica, seja qual for, está a adesão a Jesus: hoje se fala de “encontro”. A vocação específica, sacerdócio, vida religiosa, vida matrimonial ou outro tipo de vida que se possa imaginar, é uma modalidade do seguimento, mas o seguimento - adesão à pessoa de Jesus - vem antes e é condição prévia e indispensável para qualquer vocação. Seguimento de Jesus, elemento básico de toda vocação especifica, significa:

a. imitar o mestre: Jesus é o modelo a ser recriado na vida do discípulo (Jo 13, 13-15); convida-nos a apreender dele que é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), e a imitá-lo no serviço aos irmãos (samaritano, lava-pé), carregando a cruz: “quer quiser ser meu discípulo,  carregue sua cruz e me siga” (Mc 8,34);

b. participar do destino do mestre: convida a “estar com ele nas provações” (Lc 22,28) e nas persecuções (Jo 15,20) e até morrer com ele (Jo 11,16; Mc 8,34);

c. ter a vida do mestre dentro de si: esta terceira dimensão nasce depois da páscoa: identificar-se com Jesus vivo. É a dimensão mística da vocação cristã: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20), pois tudo passa a ser considerado como um lixo para seguir Jesus e se tornar semelhante a ele: configuração (Fl 3, 7ss).
           
Outro elemento característico da vocação é a missão: Jesus os chamou para “enviá-los a pregar” (Mc 3,14). O estar com ele tem como finalidade o envio: Jesus não forma para si, nem em vista de uma profissão do discípulo, como os outros mestres; ele os escolhe “para ficarem com ele e enviá-los a pregar” = em missão. Isso para poder continuar e atualizar sua obra de salvação na história. O chamado deve assim “sair de si” para “ir ao encontro” de Jesus (adesão) e dos outros (missão).

Assim como a consciência de Deus como Pai é a raiz da identidade de Jesus: “Eu sempre faço o que o Pai me manda fazer” (Jo 12,50), “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar a termo a sua obra” (Jo 14, 34), também para nós a consciência de Jesus como Mestre e Salvador é a raiz da nossa identidade como vocacionados. Jesus, enviado do Pai, nos chama para nos enviar. Isso significa que ninguém é chamado por si e para si, mas sempre em vista dos outros (missão).
           
Daqui surge um terceiro elemento: a vocação é pessoal, mas se realiza em Igreja: Jesus, constituiu o grupo dos doze”. Por isso que São Paulo, apesar de ter um caminho próprio de evangelização, sente a necessidade de se encontrar com os outros Apóstolos, para “não caminhar em vão”. Está assim afirmado o duplo objetivo da vocação: comunidade e missão. Seguir Jesus comporta: estar com ele, formar comunidade com ele (Mc 1,17; 3) e ir à missão (Mc 1,17; Lc 5,10).

Como religiosos, somos convidados, e fazemos profissão disso, a seguir Jesus no ritmo da vida comunitária, criando um ambiente familiar que retrate a vida dos primeiros chamados: At 2, 42-47; 4,32-35. Na medida em que saberemos “estar juntos” estaremos preparados para a missão.


Para a meditação:

- Em relação à minha vocação humana: cultivo as “virtudes humanas”, base das “virtudes cristãs”?

- Tenho consciência de que a resposta ao chamado é algo constante e permanente que comporta disposição à conversão = mudança e continua reorientação?