• QUEM SOMOS

    A Ordem da SantÍssima Trindade e dos Cativos foi fundada por São João de Matha, o qual teve esta inspiração enquanto celebrava a sua primeira missa no ano de 1193. Oitocentos anos depois, esta mesma inspiração e a sua obra continuam a nos interpelar! Os Frades Trinitarios são impelidos por um espírito apostólico que os fazem anunciadores da libertação aos mais pobres, aos abandonados e marginalizados, e sobretudo, àqueles cristãos em perigo de perder a fé, por causa de sua fidelidade ao Evangelho...

  • ESPIRITUALIDADE TRINITARIA

    A vida especialmente consagrada a Santíssima Trindade constitui, desde sua origem, um elemento essencial e característico do patrimônio da Ordem Trinitária. Desta consciência trinitária flui toda sua vida espiritual e litúrgica, religiosa, comunitária e apostólica, e sua permanente renovação...

  • ONDE ESTAMOS

    A Ordem da Santíssima Trindade, dividida em sete províncias religiosas, três vicariatos e duas delegações, está presente hoje na: Itália, Espanha, frança, Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Guatemala, Porto Rico, Colômbia, Brasil, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Índia, Madagascar, Polônia, Gabão, Congo e Coréia do Sul. A missão dos religiosos trinitários, espalhados pelo mundo, é garantir a assistência a aqueles que mais necessitam: aos pobres, vítimas das diferenças sociais; aos cristãos perseguidos, vítimas de intolerâncias...

CONSOLAI, CONSOLAI O MEU POVO


“Consolai, consolai o meu povo” é o título da segunda parte da Carta da Congregação para os institutos da vida consagrada aos religiosos, “Alegrai-vos”, a partir da Exortação do papa Francisco “Evangelii Gaudium”. A primeira parte partiu de Is 66,10-14, a segunda faz uma reflexão, também em 5 itens, a partir de Is 40, 1-2.


1. À escuta

Os oráculos da segunda parte de Isaías (40-55) lançam o apelo a ir em ajuda de Israel, que tende a fechar-se no vazio de uma memória falhada, no prolongado exílio do povo em Babilônia (587-538 a.C.). Com a chegada de Ciro, o profeta intui que poderia vir a libertação inesperada. O profeta dá voz pública a essa possibilidade. As palavras que Isaías emprega  consolai... falai ao coração, falam de consolação, epifania de uma pertença recíproca, jogo de intensa empatia, de comoção e ligação vital. Fazer memória (memorial) destes acontecimentos da história do Povo de Deus é reconhecer que Deus continua presente na história e em nossa história pessoal. Dai a necessidade da escuta da Palavra de Deus.

2. Levar o abraço de Deus

Esta reflexão leva o papa Francisco a afirmar que «Hoje, as pessoas precisam certamente de palavras, mas, sobretudo têm necessidade de quem testemunhe a misericórdia, a ternura do Senhor que aquece o coração, desperta a esperança, atrai para o bem». O papa confia aos consagrados a missão “de encontrar o Senhor que nos consola como uma mãe, e consola o povo de Deus. Da alegria do encontro com o Senhor e do seu chamamento brota o serviço na Igreja, a missão: levar aos homens e mulheres do nosso tempo a consolação de Deus, testemunhar a sua misericórdia”. [1] Para Jesus, a consolação é dom do Espírito, que nos consola nas provas e acende a esperança que não desilude. A consolação é conforto, encorajamento, esperança: é presença operante do Espírito, caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança (Gl 5, 22): virtudes essenciais para os religiosos enquanto testemunhas do amor compassivo e maternal de Deus.

Num mundo que vive de desconfiança, de desânimo e depressão; numa cultura em que os homens e mulheres se deixam levar por fragilidades e fraquezas, por individualismos e interesses pessoais, ferido pelo anonimato, é pedido aos religiosos que introduzam a confiança na possibilidade de uma felicidade verdadeira, de uma esperança possível, que não se encontra somente nas qualidades, no saber, mas em Deus. Os consagrados, testemunhas do Absoluto, sinal de humanidade plena, facilitadores e não controladores da graça, marcados pelo sinal da consolação [2] tem um papel importante para apontar caminhos.

3. A ternura faz-nos bem

Testemunhas de comunhão para além das nossas maneiras de ver e dos nossos limites, nós religiosos somos chamados a levar o sorriso de Deus; e, para isso, a fraternidade é o primeiro e mais credível Evangelho que podemos contar. É preciso humanizar as nossas comunidades: «Cuidai da amizade entre vós, da vida de família, do amor entre vós. E que o mosteiro não seja um purgatório, mas uma família. Os problemas existem e existirão, mas como se faz numa família, com amor, procurai uma solução com caridade; não destruais esta em nome daquela; que não haja competição. Cuidai da vida de comunidade, pois quando a vida de comunidade é vida de família, o Espírito Santo encontra-se no seio da comunidade. E o sinal disto é a alegria” [3].

Quando uma fraternidade se alimenta do mesmo Corpo e Sangue de Jesus, reúne-se à volta do Filho de Deus para partilhar o caminho de fé guiado pela Palavra, torna-se uma só coisa com Ele. «Uma fraternidade sem alegria é uma fraternidade que se apaga. Uma fraternidade rica de alegria é um verdadeiro dom do Alto para os irmãos que sabem pedi-lo e que sabem aceitar-se uns aos outros, empenhando-se na vida fraterna com confiança na ação do Espírito» [4]. No tempo em que a fragmentação leva a um individualismo estéril e de massa, e a fraqueza das relações desagrega e asfixia a atenção pelo humano, somos convidados a humanizar as relações de fraternidade para favorecer a comunhão dos espíritos e dos corações ao estilo do Evangelho, porque «existe uma comunhão de vida entre todos aqueles que pertencem a Cristo. Uma comunhão que nasce da fé [5].

4. A proximidade como companhia

Somos chamados a realizar um êxodo de nós mesmos, num caminho de adoração e de serviço. «Sair para procurar e encontrar! Ter a coragem de ir contra a corrente dessa cultura eficientista, dessa cultura da rejeição. O fantasma que se deve combater é a imagem da vida religiosa entendida como refúgio e conforto face a um mundo exterior difícil e complexo: «sair do ninho», para habitarmos na vida dos homens e mulheres do nosso tempo, e a nos entregarmos a Deus e ao próximo num generoso serviço.

«A alegria nasce da gratuidade de um encontro! … E a alegria do encontro com Ele e do seu chamamento. Não tenhais medo de mostrar a alegria de haverdes respondido ao chamamento do Senhor, à sua escolha de amor. Perante o testemunho contagioso de alegria, de serenidade, de fecundidade, o testemunho da ternura e do amor, da caridade humilde, sem prepotência, muitos sentem a necessidade de vir ver: é o segredo para as vocações. É o caminho da atração, do contágio, para fazer crescer a Igreja, caminho da nova evangelização. «A Igreja deve atrair. Despertai o mundo! Sede testemunhas de um modo diferente de fazer, de agir, de viver! É possível viver diversamente neste mundo …Eu espero de vós um tal testemunho» [6].

Confiando-nos a missão de despertar o mundo, o papa impele os religiosos a encontrar as histórias dos homens e mulheres de hoje à luz de duas categorias pastorais, que têm as suas raízes na novidade do Evangelho: a proximidade e o encontro, através das quais o próprio Deus se revelou na história. Na estrada de Emaús, como Jesus com os discípulos, acolhamos na companhia quotidiana as alegrias e dores das pessoas, esperando com ternura os cansados, os fracos, para que o caminho feito em comum tenha em Cristo luz e significado.

5. A inquietação do amor

Ícones vivos da maternidade e da proximidade da Igreja, os religiosos e religiosas vão ao encontro dos que esperam a Palavra da consolação, inclinando-nos com amor materno e espírito paterno sobre os pobres e os fracos. A crise de sentido do homem moderno e a crise econômica e moral da sociedade ocidental e das suas instituições não são um acontecimento passageiro; os religiosos são chamados a sair para ir às periferias geográficas onde cada pessoa experimenta a alegria e o sofrimento do viver [7]. Vivemos numa cultura do desencontro, da fragmentação, na qual o que não me serve é jogado fora. Hoje, encontrar um sem-abrigo morto de frio não é notícia. Por isso é preciso despojar-se «De qualquer ação que não é para Deus, que não é de Deus; do medo de abrir as portas para ir ao encontro de todos, sobretudo dos mais pobres, dos necessitados, dos distantes, sem esperar, sem se perder no naufrágio do mundo - pois o religioso é testemunha do Absoluto - despojar-se da tranquilidade aparente que as estruturas oferecem ... que nunca devem obscurecer a única verdadeira força que a Igreja tem em si: Deus» [8].

Algumas perguntas do papa Francisco

• Onde estão os consagrados, os seminaristas, as religiosas e os religiosos, os jovens, há sempre alegria, é a alegria de seguir Jesus; a alegria que nos dá o Espírito Santo, não a alegria do mundo. Há alegria! Mas, onde nasce a nossa alegria?
• Olha no fundo do teu coração ... interroga-te: tens um coração que aspira a algo de grande ou um coração entorpecido pelas coisas? O teu coração conservou a inquietação da procura ou permitiste que ele fosse sufocado pelos bens, que terminam por atrofiá-lo? Somos vítimas da cultura do provisório e do supérfluo: como posso ser livre, como posso libertar-me desta cultura?
• Eu vivo inquieto por Deus, por anunciá-lo, por dá-lo a conhecer? Ou deixo-me fascinar por aquela mundanidade espiritual que leva a fazer tudo por amor-próprio? Nós, consagrados, pensamos nos interesses pessoais? Acomodamo-nos na minha vida cristã, na minha vida sacerdotal, na minha vida religiosa, e até na minha vida de comunidade, ou conservo a força da inquietação por Deus, pela sua Palavra, que me leva a «sair» e ir ao encontro dos outros?
• Como vivemos a inquietação do amor? Cremos no amor a Deus e ao próximo, não de modo abstrato, somente pelas palavras, mas o irmão que está ao nosso lado, ou permanecemos fechados em nós mesmos, nas nossas comunidades, que com frequência são para nós «comunidades-comodidades»?
• Aos pés da cruz, Maria é a mulher da dor e, ao mesmo tempo, da vigilante espera de um mistério, maior que a dor, que está para se cumprir. Tudo parece realmente acabado; toda a esperança se apagou. Também ela, naquele momento, poderia ter exclamado: fui enganada! Mas não o disse. Ela, bem-aventurada porque acreditou, aguarda com esperança o amanhã de Deus. Pergunto a mim e a vós: nos mosteiros, esta lâmpada ainda está acesa? Nos mosteiros, espera-se o amanhã de Deus?
• Uma fé autêntica exige sempre um desejo profundo de mudar o mundo: temos também nós grandes visões e estímulos? Somos também nós audazes? O nosso sonho voa alto? O zelo devora-nos (Sl 69, 10), ou somos medíocres.

Pe. Frei Vicente Frisullo, OSST
Ministro Conventual de São Paulo



1 - Papa Francisco, Autênticos e coerentes.
2 - Evangelii gaudium, n. 47.
3 - Papa Francisco, Recomendações às Clarissas.
4 - Congregaçãopara os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica,Instrução sobre a vidafraterna em comunidade. «Congregavit nos in unum Christi amor», 28.
6 - Sede profetas verdadeiros e não brinqueis a sê-lo.
7 - «Uma Igreja que vai ao encontro de todos», vigília de oração presidida pelo papa Francisco, por ocasião do dia dos movimentos, das novas comunidades, das associações e das agregações laicais no Ano da Fé. Roma, 18 de maio de 2013.