• QUEM SOMOS

    A Ordem da SantÍssima Trindade e dos Cativos foi fundada por São João de Matha, o qual teve esta inspiração enquanto celebrava a sua primeira missa no ano de 1193. Oitocentos anos depois, esta mesma inspiração e a sua obra continuam a nos interpelar! Os Frades Trinitarios são impelidos por um espírito apostólico que os fazem anunciadores da libertação aos mais pobres, aos abandonados e marginalizados, e sobretudo, àqueles cristãos em perigo de perder a fé, por causa de sua fidelidade ao Evangelho...

  • ESPIRITUALIDADE TRINITARIA

    A vida especialmente consagrada a Santíssima Trindade constitui, desde sua origem, um elemento essencial e característico do patrimônio da Ordem Trinitária. Desta consciência trinitária flui toda sua vida espiritual e litúrgica, religiosa, comunitária e apostólica, e sua permanente renovação...

  • ONDE ESTAMOS

    A Ordem da Santíssima Trindade, dividida em sete províncias religiosas, três vicariatos e duas delegações, está presente hoje na: Itália, Espanha, frança, Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Guatemala, Porto Rico, Colômbia, Brasil, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Índia, Madagascar, Polônia, Gabão, Congo e Coréia do Sul. A missão dos religiosos trinitários, espalhados pelo mundo, é garantir a assistência a aqueles que mais necessitam: aos pobres, vítimas das diferenças sociais; aos cristãos perseguidos, vítimas de intolerâncias...

A LOUCURA QUE DEUS ESCOLHEU PARA CONFUNDIR O MUNDO



O Seminário nacional sobre a Vida Religiosa Consagrada (VRC), realizado de 23 a 27 de fevereiro deste ano, teve como tema: “A loucura que Deus escolheu para confundir o mundo”,  segundo a surpeendente expressão de São Paulo na Carta aos Coríntios (cfr. 1, 18-28). A escolha do tema quer ser uma resposta aos apelos da complexa conjuntura atual que interpela os religiosos a oferecer ao mundo as razões da nossa esperança (cfr. 1Ped. 3,15) e testemunhar concretamente a opção de vida a serviço do Reino.
Com este tema o Seminário trabalhou a riqueza, o paradoxo e o desafio da Vida Religiosa Consagrada no contexto de nossa época secularizada. O subsídio para o Seminário refletiu sobre a pasagem de 1Cor 1,18s, relacionada com as passagens vocacionais de Mc 3,14s (instituição dos Doze) e Mc 6,7-13 (missão dos Doze).
As duas passagens de Mc estão num contexto de ruptura entre Jesus e a instituição religiosa, que o tinha rejeitado por causa da cura de um homem com mão atrofiada, desafiando a lei do sábado (3, 1-5). Mc observa que, diante desta opção pela vida, por parte de Jesus: “É permitido, no sábado, salvar a vida ou matar” (3,4), os fariseus e herodianos conspiraram contra Jesus (3,6). Ameaçado, Jesus se retira; mas ele não abandona o povo (3,7-12), e muda de estrategia organizando um novo povo, convocando os Doze (3, 14 ss). Ao criar os Doze, Mc quer mostrar a “loucura de Jesus” o que serve como fundamento da catequese sobre a “loucura de Deus” na carta aos Coríntios.
A passagem de Mc 3, 14ss é um texto fundamental para o estudo da vocação nos evangelhos. Vale a pena gastar algumas palavras para entender melhor o alcance desta catequese para as comunidades de Marcos e para nós, numa reflexão sobre a vocação.
Jesus subiu ao monte e chamou os que desejava escolher. E foram até ele. Então Jesus constituiu o grupo dos Doze, para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar ... Constituiu assim os Doze... (lista)” (Mc 3,14-19). A passagem oferece:
a. uma contextualizaçaõ: Jesus sobe ao monte (13a), lembrando Moisés e o monte da revelação de Deus;
b. uma ação: chama/convoca (13b) = nomeia, convoca e constitui para si os Doze;
c. o critério da convocação: os que ele queria (13c), liberdade e soberania de Jesus (cfr.: Jo 15,16);
d. resposta dos convocados: aproximam-se dele (13d) = conviver, abraçarndo o risco, a loucura da opção radical;
e. a dupla finalidade da vocação: para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar (14-15): estar com ele para aprofundar a adesão e identificar-se com ele (configuração-conformação); da profunda comunhão com ele (estar com ele) emerge a missão (cfr. Mc 16,15; Mt 28,19; At 1,8).
A primeira finalidade (estar com ele) impede que a misão se torne mero ativismo, a segunda (enviá-los a pregar) impede que o grupo se feche sobre si mesmo.
- A ruptura de Jesus com a religião oficial e o seu ato de constituir os Doze é uma verdadeita loucura;
- Mc é o único evangelista que nos relatar um outro motivo de loucura: formar novos laços de família, sem levar em consideração pai, mãe ou irmãs e irmãos; os parentes querem levá-lo de volta para casa porque ele enlouqueceu (3,21. 31-35),
- loucura que gera escândalo é, sobretudo, Jesus se identificar com o servo sofredor (Mc 8, 31-33) e a morte na cruz.
São Paulo descobre esta verdade-mistério da loucura da cruz (1Cor 2,1-2): nesta loucura encontra-se a salvação de Deus oferecida em Jesus Cristo cruficicado = Anunciar Jesus Cristo é anunciar o Crucificado (1,23) e aceitar seguir o caminho dele = seguir um caminho de loucura que conduz a cruz = único caminho de salvação.
2. A loucura de Deus em São Paulo
A Comunidade cristã de Coríntio é fundada por São Paulo nos anos 50-52, durante a sua segunda viagem missionária (At 18,1-18). Chegando de Atenas, bastante desanimado, é acolhido, junto com Timóteo e Silas pelo casal Áquila e Priscila. Nesta Comunidade, que reflete a situação caótica da cidade de Coríntios, tem de tudo: ricos e pobres, intelectuais e analfabetos, pessoas dadas à forniçaõe e à luxurias; membros que gostam de filosofia e de linguagem sofisticada, outros que vão atrás de sinais = milagres e manifestações extraordinárias com celebrações barulhentas. Trata-se de gente récem-convertida  e é evidente que a conversão não acontece como num toque de mágica. O Evangelho não conseguiu ainda penetrar a cultura, os costumes, os vícios. É neste contexto que São Paulo fala da loucrua de Deus.
Neste tempo existem duas formas de viver: a pagã, impregnada da filosofia e do pensamento grego; a judáica baseada nos sinais (1Cor 1,22), nas maravilhas de Deus em favor do povo de Israel. São Paulo apresenta uma terceira via e aí está a novidade: é o modo cristão de viver, baseado na loucura da cruz. É o tema contral da 1ª Carta aos Coríntios.
São Paulo trabalha sua argumentação com antíteses:
- sabedoria da linguagem (pagãos) para convencer os ouvintes x simplicidade de linguagem e loucura do escandalo da cruz: por isso São Paulo se apresenta como um pregador, não como um orador (Ai de mim se não evangelizar!);
- poder de Deus (judeus) x  fraqueza do crucificado (cristãos): loucura da cruz. Cruz é sinônimo de Evangelho (Boa Notícia), enquanto para os pagãos e judeus é sinônimo de  fracasso, desgraça, abominação.
Para ter uma idéia da novidade da cruz na teologia de São Paulo, basta observar que:
- no Antigo Testamento não aperece o substantivo cruz, nem o verbo crucificar, mas fala-se de pendurar no madeiro (Gn 40, 19; Dt 21,22-23; Js 8,29; 10,26-27);
- no Novo Testamento a palavra cruz aparece 27 vezes: 16 nos evangelhos e 11 nas Cartas de São Paulo; o verbo crucificar aparece 44 vezes das quais 8 veses nas Cartas de São Paulo. É um divisor de águas entre o Antigo e o Novo Testamento
A cruz ensina que a realização plena da humanidade passa pela dor, sofrimento, autosuperação; não há benefício sem sacrifício. A cruz, para o cristão, é poder de Deus; por ela se manifesta a salvação. É com a cruz que Deus destrói a sabedoria dos sábios. A loucura de Deus é Jesus crucificado, do jeito que ele aconteceu, sem tirar nem acrescentar nada: não somos nós que alcançamos a Deus pela subita (religiões naturais), mas é ele que nos alcança pela descida (revelação) até a morte de cruz (Fl 2, 6-11).
Um Deus que se revela na fraqueza do crucificidado, deve aparecer um absurdo para quem não crê. A cruz pela cruz é um absurdo; mas Jesus crucificado em fraqueza recebe seu pleno sentido na ressurreição.
3. Da loucura da cruz à Comunidade de irmãos.
A loucura, a entrega total de Jesus por nós, é a sensatez (sabedoria) de Deus; a entrega total por Jesus é a sensatez (sabedoria) do cristão. É a terceira via indicada por São Paulo. A loucura da cruz é a verdadeira sabedoria = sabor = sal que dão sentido à vida, o que implica conversão profunda, mudança (metánoia) de ótica em ver e julgar os fatos e acontecimentos da vida pela ótica do Crucificado. São Paulo lembra aos Coríntos que Deus não escolheu os sábios deste mundo; e ele faz questão de mostrar que entre eles “não há muitos intelectuais, nem muitos poderosos, nem muitos da alta sociedade” (1Cor 1, 26): “Aquilo que o mundo considera fraco, vil e desprezível é o que Deus escolheu” (1,27) e todos são reunidos sob uma única denominação: irmãos. E o fundamento disso é o chamado: “vós que recebestes o chamado de Deus” (1, 26). Isso é um convite a renunciar aos critérios da lógica humana e se apropriar da lógica  da loucura de Deus. Assim como pela loucura da cruz Jesus se torna solidário a todo homem, o crente se torna solidário, se faz irmão abrindo seu coração, descobrindo e acolhendo a realidade por inteiro: a Comunidade do Crucificado se abre aos crucificados.
 4. A loucura da vida religiosa consagrada
Quando Jesus escolhe homens e mulheres sem instrução e prestígio aos olhos da sociedade, não está facendo a apologia da fraqueza, mas coloca em evidência o poder de Deus. Nesta mesma lógica entra a nossa vocação: eu, religioso, sou a loucura que Deus escolheu para confundir o mundo. Cada Religioso é essa loucura, “pathos” de paixão. Quando alguém decide se colocar na contramão do pensamento mundano, torna-se um louco, como fora louco o Mestre, Jesus de Nazaré. É preciso muita coragem pasa ser discípulo de alguém que morre abandonado e crucificado. Somente um coração apaxionado é capaz de fazer este passo.
Por causa da sua Paixão pelo Reino Jesus foi taxado de louco não por estranhos, mas pelos seus próprios familiares que vêm procurá-lo para levar de volta para casa e à razão, argumentando que ele estava fora de si (Mc 3,21). O religioso, com seus votos de obediência, castidade e pobreza, vividos com generosa integridade, mostra que é possivel viver a loucura de Deus; é uma testemunha que incomoda o mundo, pois se coloca contra seus “valores” e critérios. O religioso é alguém que se deixou “contaminar”  e, ele mesmo, propaga esta “febre”, pela loucura de Jesus.
A humanidade destroçada, sofrida, judiada e marginalizada precisa desta loucura, vivida e levada até às últimas consequência por nós. O amor por Jesus e seu Reinno nos leva à loucura, e a loucura no amor se torna paixão. Como religiosos, somos e continuaremos a ser “a loucura que Deus escolheu para confundir o mundo” (1Cor 1,27). Por isso nós incomodamos o mundo! E ... ai de nós se não o incomodassemos! É a nossa forma de anunciar Jesus, e Jesus crucificado. “Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16).
Pe. Frei Vicente Frisullo, OSST
Ministro conventual