• QUEM SOMOS

    A Ordem da SantÍssima Trindade e dos Cativos foi fundada por São João de Matha, o qual teve esta inspiração enquanto celebrava a sua primeira missa no ano de 1193. Oitocentos anos depois, esta mesma inspiração e a sua obra continuam a nos interpelar! Os Frades Trinitarios são impelidos por um espírito apostólico que os fazem anunciadores da libertação aos mais pobres, aos abandonados e marginalizados, e sobretudo, àqueles cristãos em perigo de perder a fé, por causa de sua fidelidade ao Evangelho...

  • ESPIRITUALIDADE TRINITARIA

    A vida especialmente consagrada a Santíssima Trindade constitui, desde sua origem, um elemento essencial e característico do patrimônio da Ordem Trinitária. Desta consciência trinitária flui toda sua vida espiritual e litúrgica, religiosa, comunitária e apostólica, e sua permanente renovação...

  • ONDE ESTAMOS

    A Ordem da Santíssima Trindade, dividida em sete províncias religiosas, três vicariatos e duas delegações, está presente hoje na: Itália, Espanha, frança, Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Guatemala, Porto Rico, Colômbia, Brasil, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Índia, Madagascar, Polônia, Gabão, Congo e Coréia do Sul. A missão dos religiosos trinitários, espalhados pelo mundo, é garantir a assistência a aqueles que mais necessitam: aos pobres, vítimas das diferenças sociais; aos cristãos perseguidos, vítimas de intolerâncias...

O ROSTO DA PALAVRA



Neste mês da Bíblia, somos convidados a “nos abeirarmos da Palavra”, segundo a bela expressão do papa Bento. Proponho como tema desta meditação uma das quatro imagens (voz, rosto, casa, caminho) dos Padres no Sínodo de 2008 sobre A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja: “O Rosto da Palavra”. Todos temos a experiência do rosto: vivemos rodeados de rostos. A nossa existência é feita de encontros e desencontros de rostos: rostos simpáticos, antipáticos, indiferentes; rostos belos, feios; tristes, alegres; rostos restaurados, recauchutados, rebocados ...
Falar de rosto significa falar de encontro, pois o rosto indica alguém, uma pessoa que o rosto manifesta, revela, define e identifica. E o rosto fala também, com todas as expressões da comunicação (expressão de amor, de compaixão, de raiva, de ressentimento, de sofrimento, de indignação, de ódio, de indiferença...). Assim o rosto fala, e fala sempre, mesmo quando está mudo. O Evangelho de Lucas registra um momento emocionante e dramático em que o rosto de Jesus humilhado, voltando-se para Pedro que acabava de traí-lo, o marcou para sempre: “Então o Senhor se voltou e olho para Pedro. E Pedro se lembrou de que o Senhor lhe havia dito: ‘Hoje antes que o galo cante, você me negará três vezes’. Então Pedro saiu para fora e chorou amargamente“ (Lc 22, 61-62).
E a história continua com a lembrança de um outro rosto, desta vez o rosto de Pedro: uma tradição diz que Pedro tinha no rosto as marcas das lágrimas que lhe caíram durante a vida toda, como sinal do seu profundo arrependimento. O evangelho de Lucas nos diz ainda que o rosto de Jesus se transformava durante a oração. É vendo o rosto dele transformado depois de uma oração, que os discípulos pediram: “Senhor, ensina-nos a rezar!” (Lc 11,1). A tradição religiosa fala do rosto de Jesus impresso no pano de Verônica.
Falar em rosto significa afirmar a cristologia da Palavra: a Palavra eterna e divina entra no espaço e no tempo, assumindo um rosto e uma identidade humana, a tal ponto que é possível aproximar-se da mesma diretamente e pedir, como fez aquele grupo de gregos presentes em Jerusalém: «Queremos ver Jesus» (Jo 12, 20-21).
O encontro com o rosto realiza a palavra, pois lhe dá identidade, lhe dá um tom, a personifica; enfim, lhe dá um rosto, e a palavra se torna meio privilegiado de comunicação, como nos atesta o evangelho de João com aquela afirmação surpreendente: “E a Palavra de Deus se fez homem e habitou entre nós” (Jo 1,14) e, morando no meio de nós, assumindo um rosto humano, veio ao nosso encontro e se tornou revelador do Pai e nosso companheiro de viagem. É o processo da Encarnação e que se realiza em várias etapas e formas.
 1. A Primeira etapa, que constitui o início da nossa fé, foi apresentada de forma solene, poética e emocionante pelo evangelista João: “E a Palavra se faz homem e habitou no meio de nós” (Jo 1, 14), onde “Se fez homem” significa: assumiu um ROSTO humano. Tomando um rosto, a Palavra, «o Verbo que está junto de Deus e que é Deus», «a imagem do Deus invisível, gerado antes de toda a criatura» (Cl 1, 15), se revela também como Jesus de Nazaré, que caminha pelas estradas de uma província marginal do império romano, fala uma língua local, revela as características de um povo, e sua cultura: é o mistério da Encarnação em toda a sua plenitude.  E isso é tão real, que Jesus Cristo se queixa da incapacidade de Felipe em ler e encontrar nele o rosto do Pai: “Faz tanto tempo que estou no meio de vocês, e você ainda não me conhece, Felipe? Como é que você diz: Mostra-nos o Pai?” (Jo 14,9). Eis aqui o assombro: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9): em Jesus de Nazaré, a Palavra de Deus se torna o próprio Rosto de Deus Pai! E o Filho de Deus, a Palavra feita carne, continua a ser um rosto humano, também naquele cadáver que é depositado no sepulcro; a Ressurreição é o testemunho vivo e eficaz disto, pois nele, sem vida, se manifesta o incrível amor de Deus Pai: “Ele amou de tal forma o mundo, que entregou seu Filho único ...  para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 16-17). “O Verbo, a Palavra de fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) e, graças à encarnação da Palavra num rosto humano, é que “nós recebemos graça sobre graça”, segundo admirável expressão de João (1, 16).
2. A segunda etapa é da Palavra que se encarna no Livro.  A tradição cristã muitas vezes estabeleceu um paralelo entre a Palavra divina que se faz carne e a mesma Palavra que se faz livro. Santo Inácio de Antioquia falava do Evangelho como “carne de Cristo”. Ele dizia: “Me refugio no evangelho como na carne de Jesus”. São Jerônimo afirmava que nós “Comemos e bebemos o Sangue de Cristo no mistério (Eucaristia), mas também na leitura das Escrituras ... para mim, penso que o Evangelho é o corpo de Cristo”.  Por isso, o cristianismo se apresenta como religião da Palavra, mais do que a religião do Livro. Palavra esta que não é simplesmente um sopro da voz, nem a composição de letras e vogais: é uma Pessoa com um Rosto definido: Jesus de Nazaré. Daí a expressão de São Tomás de Aquino: quando lemos a Bíblia, não estamos em busca de palavras, mas de uma Pessoa, de um rosto: Jesus Cristo, a Palavra. Todos os 73 livros da Bíblia convergem neste rosto: «Nos tempos antigos, muitas vezes e de diversos modos Deus falou aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas ultimamente falou-nos através do seu próprio Filho» (Hb 1, 1-2). Eis porque Hugo de São Victor, como já Santo Agostinho, coloca a pessoa de Jesus como ponto de convergência dos dois Testamentos: “Toda a Sagrada Escritura constitui em um só livro, e este livro único é Cristo no mistério, porque toda a Divina Escritura fala de Cristo e se realiza em Cristo”. Se nos limitarmos somente ao conhecimento da «letra», a Bíblia permanece apenas um documento do passado, um nobre testemunho ético e cultural, mas graças à Encarnação de Jesus de Nazaré, a Bíblia se torna um livro vivo, surpreendente, atual, caminho de salvação, porque nos leva ao encontro com o Rosto do Filho de Deus, revelação do próprio Deus: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9).
3. Na terceira etapa a Palavra se encarna no rosto do irmão. São Leão Magno, falando da Encarnação afirma: “O único e mesmo Cristo está não apenas neste homem, primogênito de toda criatura, mas também em todos os santos. Disto não podemos duvidar”. São Leão fala da encarnação da Palavra - Filho de Deus – “nos santos”, termo que designa os cristãos. Esta afirmação de São Leão encontra respaldo nas próprias palavras de Jesus registradas:
- nos Atos dos Apóstolos, a propósito da perseguição de Saulo contra os cristãos, o próprio Jesus se identifica com os cristãos perseguidos: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (At 9, 4). A Palavra que se torna Rosto - Jesus de Nazaré - se encarna no rosto dos irmãos perseguidos.
- no Evangelho de Mateus, a propósito do juízo final: estava com fome, estava com sede, estava nu, estava preso e doente: “Eu garanto a vocês; todas as vezes que vocês fizeram isto a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25, 40).
O Documento de Aparecida, no qual a palavra rosto recorre 17 vezes, fala do “rosto daqueles que sofrem” e, apresenta a lista de rostos desfigurados: uma longa e triste ladainha de sofrimentos (65). Estes rostos não podem deixar indiferente o cristão, pois neles somos convidados a realizar o encontro com o Rosto de Cristo.  Se Ele se queixa com Felipe porque é incapaz de encontrar no rosto dele o rosto do Pai: “Felipe, como é que você diz: mostra-nos o Pai?” (Jo 14,9), “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9), Ele continua se queixando com aqueles que, no rosto do irmão, não conseguem ver o Rosto dele: Eu garanto a vocês, todas as vezes que vocês não fizeram isto a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram” (Mt 25, 45). A cristologia da Palavra nos leva ao compromisso com o irmão.
Para a reflexão:
- Com Moisés possamos exclamar: “Senhor, mostra-me o teu rosto!”
- Com o salmista: “Ouço dizer no meu coração: ‘Procure minha face’ É tua face que eu procuro, Javé, Não me escondas tua face”.
- Com o anseio ardoroso de ver o rosto de Deus, suplicamos: “A minh´alma tem sede de Deus, o Deus vivo anseio com ardor, quando irei ao encontro de Deus e verei tua face, Senhor”, pois a palavra e a oração reclamam o Rosto.
- Ver o rosto de Deus é a máxima benevolência do próprio Deus: “Deus se compadeça de nós e nos abençoe, faça brilhar sobre nós a luz do Seu rosto”.
- Em nosso dramático itinerário de busca, possamos aclamar: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora foram os meus próprios olhos que te viram» ( 42, 5).
A palavra tem boca, mas só o rosto fala ...
A palavra tem olhos, mas só o rosto vê... 
A palavra tem ouvidos, mas só o rosto escuta ...
A palavra diz, mas só o rosto sabe ...
A palavra proclama, mas só o rosto canta ...
A palavra escreve, mas só o rosto sente ...
A palavra , mas só o rosto entende...
A palavra recita, mas só o rosto dialoga ...
De O rosto de Cristo é a sala do encontro de Deus com o homem no diálogo universal da criação. (Frei Manuel Rito Dias, in Bíblica, n.º 327, Março-Abril 2010).




Pe. Frei Vicente Frisullo, OSST
Ministro conventual