• QUEM SOMOS

    A Ordem da SantÍssima Trindade e dos Cativos foi fundada por São João de Matha, o qual teve esta inspiração enquanto celebrava a sua primeira missa no ano de 1193. Oitocentos anos depois, esta mesma inspiração e a sua obra continuam a nos interpelar! Os Frades Trinitarios são impelidos por um espírito apostólico que os fazem anunciadores da libertação aos mais pobres, aos abandonados e marginalizados, e sobretudo, àqueles cristãos em perigo de perder a fé, por causa de sua fidelidade ao Evangelho...

  • ESPIRITUALIDADE TRINITARIA

    A vida especialmente consagrada a Santíssima Trindade constitui, desde sua origem, um elemento essencial e característico do patrimônio da Ordem Trinitária. Desta consciência trinitária flui toda sua vida espiritual e litúrgica, religiosa, comunitária e apostólica, e sua permanente renovação...

  • ONDE ESTAMOS

    A Ordem da Santíssima Trindade, dividida em sete províncias religiosas, três vicariatos e duas delegações, está presente hoje na: Itália, Espanha, frança, Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Guatemala, Porto Rico, Colômbia, Brasil, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Índia, Madagascar, Polônia, Gabão, Congo e Coréia do Sul. A missão dos religiosos trinitários, espalhados pelo mundo, é garantir a assistência a aqueles que mais necessitam: aos pobres, vítimas das diferenças sociais; aos cristãos perseguidos, vítimas de intolerâncias...

Martírio: testemunho de fé



Seguindo o ano “duplamente” jubilar, em que nossa Ordem nos propõe celebrar com alegria e gratidão os nossos santos pais Fundador e Reformador, João de Matha e João Batista da Conceição, seguindo também no “Ano da Fé”, proclamado pelo papa Bento XVI em outubro de 2012 até novembro de 2013, tivemos a alegria de celebrar a beatificação, em 13 de outubro de 2013, dos nossos irmãos Mártires Trinitários de Alcázar de San Juan, Espanha, sem nenhuma dúvida, mártires da fé em Cristo Jesus e na sua Santa Igreja.

Sabemos que a palavra “Martírio” – do grego marturia ou marturion – significa literalmente “testemunho”, no sentido mais cristão ou teológico “martírio” é o fato de morrer para dar testemunho de Cristo: por seu sofrimento e por sua morte, a testemunha, o martus, manifesta a verdade do testemunho que presta a Cristo e ao Evangelho. Na Bíblia, já no Antigo Testamento mas especialmente nos Evangelhos, o martírio é sinal do mundo vindouro, onde definitivamente o bem terá vencido o mal, garantido a glória eterna para todos os que perseverarem nessa luta, para todos os que testemunharem essa verdade.

Na Carta Circular do nosso Ministro Geral Pe. Frei José Narlaly à Ordem e à Família Trinitária, com motivo da beatificação do Pe. Hermenegildo da Assunção e seus Companheiros Mártires, ele nos lembra uma uma frase memorável do papa João Paulo II dirigida a nós por ocasião do nosso oitavo centenário em 1998, frase que diz: “Os exemplos de santidade e martírio, que enriquecem a vossa família religiosa, são uma confirmação do vosso carisma”. Nosso Ministro diz que “É verdade (...) nossa vocação é confirmada por tantos irmãos e irmãs de nossa família que deram sua vida por Deus no martírio ou que viveram de forma excelente as virtudes cristãs”.

Somos convidados por nosso Ministro Geral, como Ordem e Família Trinitária, a render graças a Deus Trindade por tão belos exemplos de doação de nossos irmãos. Somos convidados também a fazer uma reflexão sobre nossa vocação de sermos sinais de doação, de renúncia e entrega a Deus Trindade, vivendo com fidelidade nossa consagração e vocação e sermos sinais do amor e da misericórdia de Deus para aqueles que nos circundam.

Fray Narlaly nos escreve dizendo que, “durante a terrível perseguição da Guerra Civil Espanhola – que em três anos, nunca será demais lembrar, martirizou quase sete mil religiosos e religiosas! – 22 de nossos irmãos foram martirizados, vítimas do ódio contra Deus e a religião. Desses 22, nove foram beatificados em 2007 e agora temos mais seis: Frei Hermenegildo da Assunção, que era Ministro daquela comunidade, Frei Boaventura de Santa Catarina, Frei Francisco de São Lourenço, Frei Plácido de Jesus e Frei Antônio de Jesus e Maria, esses cinco sacerdotes, e ainda Frei Estevão de São José, que era irmão cooperador, lembrado como homem de grande caridade, a ponto de todos os dias repartir na portaria do convento a comida com os mais pobres. Todos os seis, segundo testemunhos, “viveram sua vida religiosa entregues à oração e ao apostolado, em um cotidiano marcado pela pobreza e pelo trabalho, em contato direto com o povo de Alcázar de San Juan”, nesta cidade, “religiosos e leigos trabalharam de forma admirável e reconhecida” pelo bem da população, inclusive oferecendo  oportunidade de estudos a alunos pobres que não podiam pagar por isso. Fato esse certamente esquecido pelos milicianos da Guerra Civil.

Fray Narlaly lembra que a perseguição da Guerra Civil Espanhola se tratou “de uma perseguição aberta, de uma crueldade que admite poucas comparações, com o objetivo de eliminar fisicamente o clero e os católicos mais engajados na fé e a banir todo sinal/símbolo religioso da vida pública e privada dos fiéis”. Nesse clima, na manhã do dia 21 de julho de 1936 nosso convento foi cercado por milicianos, que prenderam e torturam nossos frades, junto a outros religiosos franciscanos e um dominicano. Os sacerdotes foram mortos na noite de 26 para 27 de julho. Frei Estevão foi morto, após longo sofrimento moral e físico, no da 12 de setembro, quase dois meses depois de preso. Fray Narlaly nos diz que três aspectos ao redor desses seis mártires devem ser considerados: “seu amor a Cristo, o testemunho de amor fraterno e seu sofrimento pela fé. (...) As palavras que dizemos em nossa profissão religiosa: ‘até a morte’, no caso dos mártires adquirem um significado novo: até a vida. Eles foram assassinados porque eram religiosos; e eles deram sua vida como resposta de amor a Cristo (...) O tempo da perseguição e da prisão foi um impressionante testemunho de união com o Senhor (...) Na hora suprema muitos gritaram: ‘Viva Cristo Rei!’, confessando seu amor completo e incondicional ao Senhor. O segundo aspecto é o heróico amor fraterno de nossos irmãos mártires. Ao menos três tiveram oportunidade de livrar-se do martírio, por influência política de familiares e amigos, mas rechaçaram tal possibilidade, dizendo que queriam sofrer a mesma sorte dos irmãos, confirmando que a vida fraterna é parte essencial e irrenunciável de nossa consagração. Tal testemunho de fraternidade nos deve impulsionar a uma aposta decidida por uma contínua conversão a uma vida fraterna mais autêntica e de maior qualidade, sabendo que essa é nossa vocação na Igreja”.

Nosso Ministro Geral nos alerta que vivemos um tempo de perseguição religiosa – ainda que às vezes pareça estar muito distante de nós –, perseguição que se faz realidade em alguns de nossos países. Nos lembra também que “nós trinitários, fundados para o socorro dos que sofrem por sua fé em Cristo, devemos tomar consciência  especialíssima sobre nossos deveres neste momento de nossa história. O trabalho a favor do livre exercício da relação do homem com Deus e da denúncia de toda intolerância deve unir-se ao auxílio dos que sofrem por causa da fé. A beatificação desses seis irmãos nossos é uma grande graça  que  a Santíssima trindade nos dá. Sua mensagem de amor a Cristo e aos irmãos é a mensagem do triunfo da Graça de Deus sobre nossos limites, da vida sobre a morte, da mansidão sobre a maldade. Estes seis beatos trinitários manifestam a beleza, tão antiga e tão nova, do Evangelho do Senhor Jesus, feita realidade na vida de pessoas tão simples e tão afastadas do extraordinário como foram eles. Esses mártires, com suas coroas e palmas fazem mais santa nossa Ordem, (...) pelo seu fiel cumprimento de sua profissão religiosa”.

Sabemos que o martírio é conatural à fé cristã. O próprio Cristo tantas vezes nos convida a assumir sua cruz e segui-lo em sua paixão: “Quem não tomar sua cruz para seguir-me, não é digno de mim. Quem se agarrar à vida, vai perdê-la, quem a perder por mim a conservará” (Mt 10, 38-39). E ainda: “Asseguro-vos que, se o grão caído na terra não morrer, ficará só; se morrer, dará muito fruto. Aquele que se agarrar à vida, a perderá; aquele que desprezar a vida neste mundo, a conservará para uma vida eterna. Quem me serve que me siga, e onde eu estou estará meu servidor. Se alguém me servir, o Pai o honrará” (Jo 12, 24-26). Todo cristão, por ser batizado, deve manter a consciência de que, se for necessário, deverá estar sempre disposto a morrer por Cristo, associando-se a ele na entrega de si mesmo, sendo esse o modo mais nobre de seguir a Jesus Cristo. Contudo, também é preciso lembrar que o martírio não é fruto de esforço ou de uma deliberação humana, embora certamente contará com a liberdade humana e a capacidade de responder com generosidade a tal chamado. Ninguém será mártir por mérito próprio, o martírio é sempre resposta a um chamado do bom Deus, que nos convida a um testemunho de amor e, ao nos convidar, já plasma o ser da pessoa chamada, dando-lhe a capacidade de viver tal disposição de amor.

Que a alegria de poder viver e conhecer esse testemunho de amor a Cristo que nos deram nossos irmãos espanhóis, tão próximos de nós no tempo, nos dê também o desejo de viver com entusiasmo nossos trabalhos, ainda que não sejam os mais agradáveis e os que tenhamos sonhado.


Textos para meditar:

Jó 19,1-29
Lc 6,40 e Mt 10,24-25
2Cor 12,1-10
LG 42
Carta aos Romanos de Santo Inácio de Antioquia, Liturgia das Horas, 17 de outubro.



Pe. Frei Vicente de Paulo Dias Pereira, OSST